Exposição

Rien

André Cepeda
22.03.2014 — 10.05.2014

O aspecto mais marcante das imagens que compõem a série Rien de André Cepeda é a sua frontal, taxativa e crua literalidade. Uma pedra suspensa no negro, uma parede com marcas do tempo e do mau trato, um fio eléctrico que atravessa um tecto, uma mulher nua que se expõe são isso mesmo. A expressão central aqui é “isso mesmo”.

O que está nas imagens pode ser descrito, com bisturi, pode ser analisado como se num vidro de laboratório, pode ser sentido como uma estalada, mas sempre sob a égide de uma sensação imperiosa de que o que aqui está é isso mesmo, uma mulher ou uma parede, uma pedra ou um fio eléctrico.

O caminho para aqui chegar tinha passado por diversas etapas, desde uma atenção cirúrgica aos restos urbanos, um olhar frontal sobre o que não merece senão uma visão de relance. Depois uma convivência sem distância com vidas que, também elas, só poderiam ser vistas de relance.

A série Rien, no entanto, na conversão ao preto e branco, ganhou uma realidade quesó a fotografia pode conferir, sobretudo porque não se enredou em qualquer retórica poética sobre a potência do próprio preto e branco, nem se perdeu na criação de um discurso mais ou menos alegórico. A sua literalidade é o seu argumento, abrindo uma multiplicidade de possibilidades, frequentemente deceptivas para a análise – não há discurso que seriamente possa converter a imagem em metáfora de nada, nem de tristeza, nem de abandono, nem de cicatriz nem de nada.

(...)Por vezes, quando olhamos para estas fotografias, somos confrontados com alguma memória do cinema de Pedro Costa, ou de Jean-Marie Straub. Porque as imagens são de um rigor formal equivalente e porque se atravessam perante nós, sem piedade. Mas ao contrário do cinema, no qual o dispositivo cinematográfico está sempre presente – e voluntariamente presente, nos casos citados -, nestas fotografias o dispositivo fotográfico desapareceu, tornou-se translúcido. Não pensamos que entre nós e o que está perante nós há um processo e um fotógrafo porque a exposição daqueles corpos e daquelas paredes, daqueles lugares e daquele sexo foram feitas para alí estarem, apontando-nos como os seus destinatários, sem mediação, directamente tácteis, tão disponíveis como uma coisa qualquer que sempre ali esteve, exposta, por vezes tão discreta como uma pequena greta numa parede, uma gotícula, uma prega na pele de um fruto que secou, a doçura de uma pedra. Como se entre nós e este mundo respirasse um hálito que pode ser sentido. Como se entre nós e as imagens não existisse nada.

(excertos do texto Nada de Delfim Sardo)

LocalGaleria Câmara Escura