Pai Mar
Hermano NoronhaA ténue linha, oscilante, que separa o meio líquido do meio seco só é compreensível habitando o seu mapa. Só percorrendo essa fronteira se pode experienciar a sua condição orográfica, se pode conceber uma identidade comum.
O mar é um extenso corpo de água salgada, um oceano que une diferentes culturas e sofre diversos danos. Um espaço transitório que, subordinado à órbita lunar, oscila, comum, por toda a superfície do planeta, envolvendo a terra, as ilhas e os continentes. Do alto não se distinguem os mares dos oceanos, não se distinguem os países, nem se vislumbram as pessoas que os habitam. Também não se distingue a sua profundidade nem o quanto terra adentra. A sua salinidade é um gradiente que se dilui em vida, entre o doce e o salgado, da nascente à foz, riscando várzeas, lagoas e deltas.
Entre mar e terra existe uma espessura comum. Uma faixa complexa de regressões e transgressões marinhas que modelam as suas margens, criando dunas, ilhas, recifes, baías, estuários, pântanos e falésias. O seu aspeto pode diferir de um outro a poucos quilómetros de distância; mesmo os ecossistemas que se repetem ao longo do litoral — como praias, restingas, lagunas e manguais — podem apresentar diferentes espécies animais, vegetais e culturas humanas.
Pai mar é esse território indefinido, uma memória coletiva em construção, marcada por signos de identidade e diferença.
Pai Mar é vida, e como tal, paisagem que vibra. Uma consciência que se vai renovando, com preocupações sobre a gestão dos recursos do mar, mas também com preocupações sobre a persistência da sua memória, das práticas e das tradições que reúne. Há neste território a urgência de proteger e desenvolver, de forma sustentável, perene, uma cultura que dilua dois mundos que, parecendo distantes, no vasto litoral oceânico se fundem. Hermano Noronha, 2023 As fotografias foram feitas em Cabo Verde, São Tomé, Irlanda e Colômbia, no âmbito do projeto EU MSCA-RISE-777998 CONCHA (“The construction of early modern global Cities and oceanic networks in the Atlantic: An approach via Ocean’s Cultural Heritage”).
Biografia ArtistaHermano Noronha é Mestre em Criação Artística Contemporânea, desenvolvendo projetos fotográficos desde 2011. Conta com diversas participações em exposições individuais e coletivas. Coordenou Residências Artísticas e participou como juri no 10o LabJovem, DRC Açores. Foi finalista no International EI Awards 2015 — Encontros da Imagem, participou na Exposição Europeia CreArt 2015 “Me and the City”, com exposições em Pardubice, Linz e Génova e foi o vencedor da Bolsa Estação Imagem 2014.
Atualmente encontra-se a desenvolver o Projeto Pai Mar, portfólio que obteve uma Menção Honrosa no Urbanautica Institute Awards 2020, foi incluído no Dodho portraits Awards 2023 e foi publicado em livro pela Cahier d’images.



