Exposição

La ricerca di un titolo (1983-2013)

Paulo Catrica
12.09.2022 — 05.11.2022

Inventámos as imagens para viver nelas além do pouco tempo que vivemos

Como resíduos de uma dupla arqueologia, do assunto fotografado e da tecnologia analógica, estas fotografias pretendem operar como uma elipse imperfeita de Roma. Um campo aberto de tracce e racconti, de memórias parcelares, individuais e colectivas, que contrariam a hipótese de reconstrução de um todo. As fotografias e a sua exposição resultam de múltiplos acasos, de reencontros inesperados com textos, livros e filmes. A sua montagem no formato expositivo tem na sus génese um ensaio de Freud, que evoca a metáfora da cidade histórica enquanto palimpsesto, estabelecendo a analogia entre a destruição do tecido urbano e os traumas humanos.

Resultado de duas viagens a Roma, em Março de 1983 e Dezembro 2013, estes snapshots a partir de filme analógico negativo côr de 35mm tinham como destino provável a obscuridade do arquivo. O seu resgate aconteceu algures em 2018, quando pela mão do meu amigo Sebastiano Raimodo, os negativos voltaram a Itália, e desde então, num vai e vem entre Lisboa e Monticello-Mondonico, fui recebendo do Simone Cassetta picolli provini 10x 15 cms e impressões 19x28 cms em diferentes papéis fotográficos analógicos. A superfície dos papeis analógicos, os defeitos dos filmes fora de prazo de validade e as dominantes de côr foram decisivas para a decisão de expor estas fotografias.

Um ensaio de Luigi Ghirri iluminou a hipótese de mostrar fotografias de Roma, um lugar intensamente representado :

(...) todos os lugares foram sobrescritos, recontados e investigados a tal ponto que cada vez que os olhamos, parece impossível escapar de um sentimento de 'dejá vu' (...) pouco a pouco, vamos encontrando cantos escondidos, que paradoxalmente, juntamente com outros mais familiares, parecem misteriosamente estar cheios de novidades e detalhes imprevistos (...) Estes são o sinal de que nós, confiando em estereótipos, esquecemos o enorme poder de revelação que o nosso olhar pode reter, e que todas as nossas cidades provavelmente precisam ser lidas de novo com um olhar que 'restaura' todos os monumentos e estruturas que compõem o nosso habitat, e as cores que o determinam e definem (... )a tarefa é simplesmente rever e revisitar esses lugares que, à primeira vista, pareciam negar qualquer reinterpretação.

A reversão da metáfora de Freud foi ganhando sentido, tendo as fotografias como ponto de partida, a reconstrução deste campo de fragmentos precipitou um duplo movimento, o de reler autores e de rever filmes que estavam adormecidos, tais como os negativos na gaveta do arquivo. E estes foram estimulando novas leituras.

Entre os autores revisitados, citados e nomeados, a admiração intelectual e as afinidades ideológicas e políticas, por Leonardo Sciascia e Pier Paolo Pasolini, motivaram as escolhas dos breves racconti incluídos na montagem. A dificuldade na escolha de um título que evitasse um hipotético senso lógico, discursivo ou narrativo, encontrou refúgio nas palavras de Pasolini, deixando a reconstrução desta elipse imperfeita ao espectador:

È lui che deve rimettere insieme i frammenti di un’opera dispersa e incompleta. È lui che deve ricongiungere passi lontani che però si integrano. È lui che deve organizzare i momenti contraddittori ricercandone la sostanziale unitarietà. È lui che deve eliminare le eventuali incoerenze (ossia ricerche o ipotesi abbandonate). È lui che deve sostituire le ripetizioni con le eventuali varianti (o altrimenti accepire le ripetizioni come delle appassionate anafore).

Paulo Catrica (Lisboa, 1965)

Estudos de fotografia na Ar.Co., Lisboa (1985); Licenciatura em História, Universidade Lusíada, Lisboa (1992); Mestrado em Imagem e Comunicação, Goldsmith’s College, Londres (1997); Doutoramento em Estudos de Fotografia, Univer- sidade de Westminster, Londres (2011). Investigador do Instituto de História Contemporânea, Universidade Nova de Lisboa.

Expõe e publica regularmente desde 1997. Das exposições recentes (selecção): Fussball ißt unser Leben, Kunsthaus Interlaken (Suiça, 2022); Madonie Paesaggi 1973-2021 (Petralia Sottana, Sicília, 2022); O sítio em Vista, CEFT (Tomar, 2021); Almada, Um Território em Seis Ecologias, Museu da Cidade (Almada, 2020); Prospectus, Carpintar- ias de São Lázaro (Lisboa, 2020); O desvio que fez a curva do rio, Galeria do Parque (V.N.Barquinha. 2019); Grübler, Casa das Artes (Tavira, 2017); El Solitario Jorge, seiscien- tos veinte y dos días antes de su muerte, Galeria Presença (Porto, 2016).

Monografias: O desvio que fez a curva do rio (2019), Memorator (2015), Mode d’emploi (2014), TNSC (2011), Liceus (2005).

LocalGaleria Câmara Escura