João Serrano
PinturaEntre a acção e a reflexão.
Pelo menos um dos estereótipos abandonados pelas ciências naturais, é o conceito de que a linguagem é um exclusivo do género humano é o carácter de permanente ambiguidade da linguagem.
Abelhas, formigas e elefantes trocam informações através de sinais, cuja interpretação é inequívoca. No contacto humano, pode dizer-se que não existe informação pura, embora por outro lado, todos os fenómenos possam ser interpretados no consciente, como informação. O nosso consciente, a auto consciência, a reflexão, a memória, deformam o significado de tudo o que nos rodeia e especialmente do que os outros fazem ou fizeram.
Uma constante inerente ao ângulo de visão acima escolhido sobre o tema da linguagem, é o dilema existente entre determinismo e vontade própria. Será que o nosso consciente produz — contra a nossa vontade e interesse — novas respostas a novas perguntas, ou será a nossa conduta que, em última instância é susceptível de ser interpretada como uma interminável e variada repetição de uma busca desesperada da Matriz, o “Paradise Lost”? Receio, (espero?), que o dilema se nos apresente como os dois pontos de fuga do horizonte único da nossa perspectiva.
A resolução deste dilema pressupõe a explosão que resulta da fusão entre consciência e realidade.
No caso do João Serrano, trata-se do caminho de volta, regressando da linguagem ao gesto, do resto à acção. Mas a linguagem, a palavra, a letra é renitente. A noção, o significado e o desenho não se deixam depor sem resistência.
O que se deita pela porta da frente volta a entrar sem pré-aviso pela das traseiras!
E depois esse medo! O medo de se ser parcial ou totalmente incompreendido.
Se fosse preciso encontrar um título que exprimisse um tema comum à obra do João, este podia ser: “A soma dos mal-entendidos”.
Mas na sua repetição, ele leva a cabo um claro desenvolvimento. Nas suas últimas telas torna-se cada vez mais visível que no seu processo, nesse vai-vem da porta da frente à das traseiras, ele se sente casa vez menos embraçado pelos obstáculos desse caminho.
Ao mesmo tempo espero — por ele e por nós — que não lhe faltem esses obstáculos. Ele próprio não se faz rogado de inventar alguns, mesmo que isso lhe custe, de vez em quando um bate-cu, antes de se render à Matriz.
