Exposição

Dream Speakers

Dalila Gonçalves
28.11.2023 — 31.12.2023

Cabaça (do árabe kara bassasa, significando abóbora lustrosa) ou Porongo (Lagenaria vulgaris) é uma planta trepadeira, da família das Cucurbitáceas, popularmente conhecidas por cabaceiras, foi uma das primeiras plantas cultivadas no mundo, inicialmente em África, no norte e nordeste do Brasil e, durante o período colonial, introduzida e plantada também em quase todo o território de Portugal, do Minho à Madeira, passando por Santarém. Hoje, está espalhada por todos os continentes do planeta. O fruto da cabaça é colhido, retira-se o miolo, lava-se bem e, depois de secar, é usado para vários fins. O seu uso enquanto elemento da vida cotidiana, desde recipiente para água e alimentos a instrumento musical, nos povos Africanos e Brasileiros foi copiado e assimilado pelos povos colonizadores. Em Portugal, muitos artesãos transformam-nas também em objetos decorativos, como cisnes, e utilitários, como candeeiros.

A cabaça, enquanto objeto do quotidiano, é a protagonista de Dream speakers (2023), de Dalila Gonçalves (1982, Castelo de Paiva). Como é comum na sua prática, identificou o objeto no seu próprio quotidiano e, a partir daí, começou a colecionar cabaças recorrendo a compras online e, essencialmente, à sua rede familiar e de amigos. Nos últimos anos, o som – e os processos de escuta que lhe estão inerentes – tem ganho um papel predominante e foi precisamente esta associação da cabaça a instrumentos musicais que interessou à artista. Nas suas pesquisas sobre os usos e métodos de transformar as cabaças, descobriu instrumentos como o chucalho, o afoxé, o berimbau, o balafon, as cabaças de água, a marimba, entre outros, incluindo vários usados na capoeira.

Numa fase inicial, a Dalila Gonçalves começou a agrupar as cabaças e a trabalhá-las para assinalar a sua ligação ao som e à música. Num processo de construção de corte, colagem, e pintura, começou a desenhar no espaço: as cabaças, interligadas, ganharam corpo e dominaram o espaço num processo que, visualmente, convida à escuta. Na verdade, convida à atenção ou a uma ação de prestar atenção. Ao contrário de trabalhos anteriores, como a Sinfonia de Vapor (2023) ou as Colunas de Ar (2020-21), a uma primeira leitura, Dream speakers não é um trabalho performativo. O trabalho não é ativado com nenhum tipo de ação, como o som que faz parte e diferencia o dispositivo da Sinfonia de Vapor, e não há uma performance que antecede a instalação, como os performers que tocaram os apitos com formas de animais para depois os colocarem em lugares pré-determinados nas Colunas Ar. Contudo, uma leitura mais atenta, revelará que a instalação convida a uma ação – ou uma performance – por parte dos públicos. Pelo seu aspeto de instrumentos amplificadores, reminiscentes de um mundo onírico entre as vísceras e os sentidos, somos convidados a aproximarmo-nos, numa tentativa de ouvir algum tipo de som. Porém, por mais que nos aproximemos, não ouvimos quaisquer sons.

Há mais de cem anos, pouco depois do início da Primeira Guerra Mundial, o artista Futurista Luigi Russolo (1885-1947, Itália) propôs a ideia de que os sons urbanos e industriais eram matéria musical. Pela sua intensidade, volume, textura, e forma, o fim da história da música deveria ser anunciado e substituído por uma vigorosa arte do ruído (Toop, 2005). Nos últimos anos, também pautados por conflitos de várias dimensões e impactos globais, entre guerras a uma pandemia global e a inúmeros movimentos sociais, o silêncio e a escuta têm sido explorado pelas suas capacidades de criarem espaços de empatia e convivialidade. Dream speakers, na sua ocupação do espaço e convite à escuta, à fala, a ouvir e a ser ouvido, junta-se à recente, mas crescente, tradição da arte do silêncio. Um silêncio que, na verdade, é composto por um ecossistema de modos de escutar.

Biografia Artista

Dalila Gonçalves
1982. Castelo de Paiva (Portugal)

Vive e trabalha no Porto. É licenciada em Artes Plásticas- Pintura (FBAUP 2005) e Mestre em Ensino de Artes Visuais pela FBAUP e FPCEUP (Universidade do Porto 2009). Concluiu, na mesma universidade, o primeiro ano do Doutoramento. Em 2008 foi seleccionada para a II edição do Curso de Fotografia do Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística. Entre 2010 e 2011 trabalhou em Barcelona no atelier do artista plástico Ignasi Aballí como bolseira do programa Inov-art. Foi artista em residência no Programme KulturKontakt, Viena, Austria (2017); na Residência Inclusartiz (Rio de Janeiro 2014); na Residência Pivô-Arte e Pesquisa (São Paulo 2018), Fundación Marso, (México DF 2020), Projecto Fidalga (São Paulo, 2023). Expõe regularmente em instituições e galerias em diferentes países da Europa, da América do Sul e EUA. Países onde está representada em colecções públicas e privadas. Apresentou o seu trabalho na Arco Madrid (soloproject); Zona MACO, México (soloproject); ArcoLisboa; ArteRio e SPArte (soloproject) Brasil; ArtBO, Colômia; ArtLima- Perú; Vienna Artfair, Áustria; Artíssima, Itália; Untitled Miami (USA).

COLECÇÕES

[CACE—Colecção de Arte Contemporânea do Estado]\[Friedrich Christian Flick Collection, Berlim (Alemanha)]\[Institución Pilar Citoler (Espanha)]\[Otazu Foundation Collection (Espanha)]\[Frances Reynolds Collection (Brasil)]\[Colección Olor Visual (Espanha)]\[Colección Kells, Santander (Spain)] [Colección Navacerrada (Espanha)]\[Davis Museum at Wellesley College, USA]\[Coleção António Cachola, Museu de Arte Contemporânea de Elvas]\[Câmara Municipal de Lisboa]\[Museu ao Ar Livre (coleção de Arte Pública), Cidade do Porto]\[Josep María Civit Gomis, Barcelona (Espanha)]\[Belle Epoque Centrum (Bélgica)] [Colección Fundación Fundomar. Sevilha (Espanha)] [Museu da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto]\ [Coleção PLMJ]\[Coleção Figueiredo Ribeiro] [Marval Collection (Milan, Berlin)]\[Coleção Instituto IPSAR, Roma (Itália)]\[LxFactory]\[Coleção S&A, Porto]. Coleções particulares Portugal, Espanha, Alemanha, França, Inglaterra, Bélgica, Itália, Brasil, Colômbia, México e EUA.

LocalCentro de Cultura Contemporânea 13