Um e duplo
Pedro Gil MendonçaPedro Gil Mendonça Depoimento do artista De título inspirado no trecho final do poema Ginkgo Biloba de Goethe, Um e Duplo explora a dualidade das coisas. Da Ginkgo Biloba que se estica até minha janela se inicia um diário de datas imprecisas, mas de afetos certeiros; uma construção poética de relações e elementos que, do natural e humano, construído e ressignificado, apresentam forças ora complementares, ora opostas, avessas e unificadas. Aqui as vivências são carregadas de um duplo sentido único. Como um fio condutor, essa noção vai se ampliando ao longo do projeto como galhos que se ramificam altos e distintos, mas que ainda se conectam ao centro, parte do todo. Os retratos não encaram a câmera, mas convidam a percorrer o olhar para o que está além. Uma subtil união entre paisagem e nós mesmos, entre céu e mar, entre estar aqui e estar lá. Um deslocamento não apenas geográfico, mas também uma busca contínua em torno da própria identidade que constitui o cerne do projeto. Uma casa só se torna um lar quando há pertencimento. *** Quando me mudei para meu atual apartamento, ele estava vazio; um móvel de TV, um armário embutido, utensílios que poderiam ter sido tanto esquecidos quanto abandonados, mas nada que fizesse desse novo lugar um lar. Do lado de fora, a árvore que espreitava minha janela estava igualmente vazia, sem folhas. Era fevereiro quando me mudei. Reparava como seus galhos se aproximavam do apartamento, mas somente com o peso das folhas ela conseguia estar ao meu alcance, se esticando a um braço de distância. À medida que novas folhas iam aparecendo, sua forma mudava com cada novo amanhecer. O exterior parecia inundar o interior,transportando ora suas cores, de um verde rico que pintava as paredes, ora com suas sombras, que dançavam todas as manhãs, uma silhueta envolta de uma aura dourada que tinha seu ápice, seu ritmo, e seu fim. Durante o confinamento, meus dias se passavam ao pé da janela, acompanhando o doce balanço de seus galhos ritmados e sonoros; quando ventava, toda sua força se revelava como mar revolto. Quando a brisa era calma, era como ondas gentis que chegam aos pés fincados na areia. De olhos fechados, o som do mar e das folhas pareciam iguais. De olhos abertos, é tudo uma coisa só. O verde gradualmente se transforma em amarelo, uma lâmpada acesa que aquece lentamente até iluminar todo branco de um amarelo acolhedor. À medida que suas folhas caíam, sua forma voltada a se revelar, seus galhos voltados para o céu; agora aquelas formas não eram mais estranhas, agora já não eram vazias.
Pedro Gil Mendonça (1990) Rio de Janeiro, Brasil
Fotógrafo e artista brasileiro natural do Rio de Janeiro. Actualmente vive e trabalha em Lisboa.
É formado em Fotografia pela Faculdade Cambury. Completou a Pós-graduação em Discursos da Fotografia Contemporânea pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.
Conta com exposições no Brasil e em Portugal. Na sua prática artística explora os conceitos de pertença e identidade.
