From Gross Bodies Freed, Divinely Move
Guilherme Curado“(...) from gross bodies freed, divinely move”, título retirado de um excerto da obra seminal de Cornelius Agrippa, The philosophy of natural magic, explora a intersecção entre humanidade, natureza e o etéreo e propõe através de um futuro pós-humano ficcionado, a criação de novas possibilidades de encontro e a dissolução das fronteiras entre as três asserções enunciadas. Não só inspirada na obra de Agrippa, mas também nos ensaios especulativos de outros autores como Donna J. Haraway, Werner Herzog ou René Daumal, a presente exposição convida a olhar/pensar para além do entendimento doutrinário apresentando uma nova realidade onde o humano e o elemental se aproximam. Como ponto de partida Guilherme ensaia e especula sobre a tensão entre o desejo humano de replicar a natureza e os profundos mistérios que esta contém.
Meticulosamente dispostas na sala, as delicadas esculturas trabalhadas em resina, atestam a crença de Agrippa de que as forças da natureza enceram em si próprias um poder sobrenatural, isto é, as sombras projetadas destas esculturas estendem-se muito para além dos seus limites físicos, evidenciando o insucesso da tentativa humana de replicar a essência do natural. A beleza e complexidade do natural impoem-se à mimetização.
A par destas esculturas apresenta-se uma instalação vídeo onde é capturada a fluidez dos elementos líquidos. A água que desagua em cascata e as correntes que tecem intrincados padrões e texturas confirmam a natureza mutável do tangível — cenário ideário de um futuro onde a humanidade se dissolve sublimemente nos elementos. Esta água, em constante fluxo energético, representa símbolicamente a inerente fluidez da vida e a tentativa fútil de fixar o seu significado.
A reiteração dá mote à exposição: a cópia de uma imagem; a gota que cai numa gavinha de musgo — um devaneio sobre a natureza fugaz da existência e sobre a multiplicidade de significados que podem derivar de um momento só. Susan Sontag em Contra Interpretações de 1964, afirma que “a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte”, propondo que cada um de nós deve resistir à tentação de impor a sua interpretação e, em vez disso, abraçar a ambiguidade e incerteza da sua própria existência.
A exposição “(...) from gross bodies freed, divinely move” desafia a percorrer as complexidades da existência pós-humana e a reconciliar com o fulgor do desconhecido. À medida que nos increvemos neste espaço, permitamo- nos ser desafiados e inspirados pelo que está cá dentro, não descorando a ideia de que o significado não deve ser imposto ao mundo, mas sim encontrado na complexidade da experiência, quer seja em cenários especulativos patafísicos quer seja no momento presente.
Biografia ArtistaGuilherme Curado (1996). Faro, Portugal
Artista multidisciplinar, reside e trabalha em Lisboa. Licenciado em Arte Multimédia e pós- graduado em Arte Sonora pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. A sua pesquisa existe na interseção entre o quotidiano, o místico e ficção, que materializa através de instalação, fotografia, som e escultura.







