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VASCO BARATA

O curador do Lagar

Vasco Barata, artista e curador do DESENGACE – Concurso de Fotografia, em entrevista ao LAGAR revela a sua visão acerca das residências artísticas e dos modos de como estas poderão ser um contributo para a valorização cultural dos concelhos de
Torres Vedras e Alenquer.
Para o artista, o desafio está em encontrar um olhar novo e pessoal, numa linguagem contemporânea, valorizando assim o património local que está em constante evolução.

LAGAR – O LAGAR está a abrir três residências artísticas na área da fotografia contemporânea, com o DESENGACE – Concurso de Fotografia. Qual a sua visão, como curador deste projecto para as residências artísticas?

Vasco Barata – O projecto LAGAR, nas suas várias iniciativas relacionadas com a fotografia, tem uma abrangência bastante grande, desde o instantâneo com o telemóvel à campanha fotográfica, em registo “maratona”. Estas são iniciativas que, de alguma forma, se aproximam do “documental” e se fazem no “presente”.
O que procuramos no DESENGACE são visões pessoais, de artistas ”fora do tempo” em que a ligação à fotografia se faça num campo alargado, em suma, aquilo que se convencionou chamar “lens based work”, ou seja, tudo o que uma objectiva pode mediar.

LAGAR – Como júri do DESENGACE o que procura nas candidaturas dos artistas?

Vasco Barata – Uma visão pessoal. Um olhar original sobre conteúdos com os quais achamos já estar familiarizados.

LAGAR – Na conferência de imprensa referiu que “não se procura o registo documental de paisagem, mas visões contemporâneas sobre estes dois concelhos”. De que modo pode a fotografia reinterpretar estes territórios em descoberta?

Vasco Barata – Esta iniciativa tem o mérito de “arriscar” o desafio a artistas de fora. Alguns dos seleccionados, espero, nunca se lembrariam deste contexto para produzir obra. Isto traduzir-se-á num olhar novo, quer para quem conhece o contexto local quer
para todos os outros.
Esse olhar particular irá contribuir para a diversidade de interpretações, irá utilizar a linguagem altamente codificada da arte contemporânea e assim, esperamos, contribuir para o enriquecimento de um património em constante evolução.
Alguém disse que o mediterrâneo, enquanto região cultural acaba onde estiver plantada a última oliveira. Se tivermos uma lógica semelhante em relação à vinha, ficamos com uma ideia mais profunda do que se pretende tratar.

LAGAR – Na sua exposição em Ponta Delgada, na galeria Fonseca Macedo, com o título Spooky Action at a Distance referiu que queria trabalhar a ideia de “acreditarmos que há um espaço da natureza pura e idílica”.
Partindo deste ponto de partida como conseguiu captar a essência da paisagem sem que fosse um registo documental?

Vasco Barata – Essa ideia de natureza como espaço idílico, neutro e puro é uma construção cultural, que vai tendo mais ou menos relevância ao longo dos tempos. De Thoreau a Nietzsche, do Éden a Arcádia...hoje, como ontem, é uma ideia com ressonâncias políticas, precisamente pela falta de espaço disponível não privatizado.
Neste contexto a “imagem” da paisagem foi tratada a partir de desenhos, pouco precisos nos seus contornos, que nomeavam a natureza através de referências orgânicas, e de imagens fotográficas que negavam ou dialogam com esses desenhos, indiciando que essa poderosa ideia de um local de liberdade serve justamente de lembrança para que esse espaço tenha que ser negociado, ou conquistado na “polis”.

LAGAR – Quais são os principais desafios que considera que os artistas terão ao percorrer estes dois concelhos?

Vasco Barata – Não perder a especificidade local ao mesmo tempo que a trabalham num contexto mais alargado, como já referi no exemplo da oliveira e do mediterrâneo.
Pão, azeite, vinho...ressonâncias mais vastas se as soubermos pensar num contexto cultural mais complexo.

LAGAR – Como artista integrou as Bienais Internacionais de Jovens Criadores (1999, 2000 e 2001), a Jeune Création Européenne 2007 – 2009: New Talents in the European Art Scene (2007 – 2009) e o Prémio EDP Novos Artistas 2011.
De que modo pode ser o DESENGACE uma oportunidade para artistas emergentes?

Vasco Barata – Neste momento, e apesar do optimismo económico reinante, para os agentes culturais (em particular para os artistas visuais) as condições de trabalho são menos que escassas.
Como disse na apresentação, e foi uma das razões que me fez aceitar o convite, alojamento, transportes, produção, catálogo e exposição garantidas são uma boa base de trabalho para jovens artistas.
Associar a isso uma boa base de divulgação, e o acompanhamento institucional conferido pela inclusão do projecto na “Cidade Europeia do Vinho 2018” é, parece-me, também um factor acrescido de valorização.

LAGAR – Uma das grandes forças das suas exposições é a relação que cada uma delas tem com o espaço onde está a expor. O trabalho de curadoria que desenvolve em cada exposição torna-a única pelo forte diálogo que tem com o espaço expositivo.
Para além de júri do DESENGACE é também curador das exposições. Quais as visões que pretende trazer para aquilo que será a apresentação final dos artistas?

Vasco Barata – Gostaria de clarificar aqui, eu não sou curador de exposições, gosto de pensar as minhas exposições com um olhar que me permite colocar-me, de certa forma, fora do meu próprio trabalho. É um pouco isso que irei fazer aqui. Pretendo acompanhar o desenvolvimento dos trabalhos com o objectivo de potenciar cada um deles. Isso implica procurar o melhor espaço para cada obra, sendo que existem, à partida, locais com um enorme potencial.

LAGAR – O que considera que projectos como o LAGAR podem trazer aos territórios de Torres Vedras e Alenquer?

Vasco Barata – Novas formas de pensar e valorizar o património cultural. A criação de diversidade cultural. Pensar o presente para ajudar a preparar o futuro.


Biografia
Vasco Barata

Licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, com estudos paralelos em Fotografia e pós-graduado em Desenho, pela mesma Faculdade. Frequentou em 2006 o Curso de Artes Visuais do Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística (Fundação Calouste Gulbenkian/ Ar.Co). Frequenta actualmente o Doutoramento em Arte Contemporânea no Colégio das Artes – Universidade de Coimbra.
Desde finais dos anos 90, Vasco Barata tem vindo a apresentar o seu trabalho sob diversas formas, alternando sobretudo entre uma investigação aturada no domínio da construção e percepção da imagem (através do recurso à prática da fotografia e do vídeo) e uma tentativa de compreensão dos mecanismos da expressão aliados à prática diária do desenho. Articula, nas suas obras, um interesse particular pelo cinema e pelas estratégias cinematográficas, pelos códigos da linguagem e por um vasto leque de referentes da cultura popular.
Está representado em diversas colecções particulares, em Portugal e no estrangeiro.
Vive e trabalha em Lisboa.